Etgar Keret - Um buraco na parede
Este é um conto inacreditavel do escritor israelense Etgar Keret, é uma mistura de surrealismo e humor negro.
Na avenida principal, a poucos quarteirões da estação, havia um buraco na parede.
Um dia alguém disse ao Dani que qualquer um que se aproximasse na parede e fizesse um desejo dentro do buraco, gritando, o desejo se tornaria realidade. Dani já tinha treze anos, muito não acreditava nessas coisas. Mas ainda uma noite, quando voltava do cinema, gritou no buraco: "Quero ser namorado da Gisela", mas nada aconteceu.
Uma outra vez ele foi ao buraco e pediu que seus pais lhe dessem uma bicicleta de alumínio no seu aniversário de número 14, e também nada aconteceu.
E ainda outro dia, um dia em que se sentia muito sozinho, gritou no buraco da parede que queria ter um amigo, um anjo da guarda, e desta vez o desejo se realizou. Não foi imediatamente, mas depois de dois ou três dias um anjo apareceu para ele. Embora (a verdade) ele não era um “anjo da guarda”. Porque este anjo nunca esteve lá quando Dani precisou dele.
Ele era um anjo magro e usava uma longa capa de chuva o tempo todo, para que suas asas não aparecessem. Ele andava curvado e as pessoas da vizinhança achavam que ele era corcunda. Às vezes, quando estavam sozinhos, o anjo tirava sua capa de chuva. Uma vez ele deixou Dani tocar as penas das asas. Foi só uma vez, porque o anjo não tirava sua capa nem para ir ao banheiro. Como se suas asas o deixassem complexado.
Certa vez, alguns garotos do bairro lhe perguntaram: "O que você tem dentro da sua capa de chuva Anjo?" E o anjo disse que ele tinha uma mochila com livros emprestados e que não queria molhar caso chovesse.
O anjo mentia o tempo todo. Contava para o Dani histórias incríveis. Falava sobre lugares no céu, sobre gatos que não tinham medo de nada, sobre bairros inteiros habitados por pessoas incapazes de fazer mal. E ele sempre jurou, por Deus, que o que ele dizia era verdade.
Dani amava muito o anjo e sempre tentava acreditar nele. Mas era difícil. Várias vezes ele lhe emprestou dinheiro, e o anjo nunca o devolveu. Nos seis anos em que foram amigos inseparáveis, Dani nunca o viu trabalhar. E quando ele mais precisou, por exemplo quando sua avó morreu, o anjo desapareceu e depois voltou com o cabelo mais comprido, e um olhar em seu rosto que significava "Peço por favor, não me pergunte por onde estive". E Dani, é claro, nunca perguntou. Além disso, eles eram grandes amigos.
Um sábado, logo depois de Dani terminar o ensino médio, os dois estavam sentados no terraço, entediados, sem falar, olhando os cabos que atravessam por cima dos telhados, as caixas d'água desbotadas, os ninhos dos pombos. E de repente Dani pensou que, em todos aqueles anos de amizade, ela nunca tinha visto o anjo voar. Então ele disse, por puro tédio:
-Que tal você voar um pouco? Não muito, apenas por aqui, para se divertir. O anjo respondeu:
-Nem que a vaca tussa. Imagina se alguém me vê? O anjo respondeu:
-Mas quem vai te ver? Se não tem ninguém no bairro neste momento. vai, um voo curto, para mim”, disse Dani. Mas o anjo disse que não balançando a cabeça negativamente e, para completar sua resposta, cuspiu uma gota verde que caiu do quinto andar até o térreo
-Bah", disse Dani, - agora tenho certeza que você nem sabe voar.
-Sim que eu posso, mas não quero que me vejam, respondeu o anjo.
E os dois ficaram em silêncio.
Depois de um tempo, Dani mudou de assunto: - Quando eu era menino, no carnaval, eu vinha aqui no terraço para jogar balões de água nas pessoas. Eu os acertava bem entre aqueles toldos.” Dani apontou para um pequeno espaço entre o armazém e a sapataria. "Era ótimo, porque as pessoas, todas molhadas, levantavam a cabeça procurando saber de onde vinha a emboscada.
O anjo se aproximou, intrigado, e olhou para a rua. Então Dani o empurrou e o anjo tropeçou na borda. Dani não queria machucá-lo. Ele só queria que o anjo voasse um pouco, para dar uma volta no ar algumas vezes, era só isso, para se divertirem. Mas o anjo perdeu o equilíbrio e caiu cinco andares como um saco de batatas.
Quando ela ouviu o barulho contra o asfalto, Dani se engasgou num grito. Então ele olhou para baixo com horror. O anjo estava esparramado entre a calçada e a rua. Ele não moveu um fio de cabelo. Apenas mexia um pouquinho as suas asas, como aqueles estremecimentos semiautomáticos que vêm logo antes da morte.
Então Dani percebeu tudo. Ele entendeu que, de todas as coisas que o anjo lhe dissera desde o início de sua amizade, nenhuma era verdade. Tudo falso. Seu amigo nem era um anjo, era apenas um cara mentiroso com duas asas.
Um dia alguém disse ao Dani que qualquer um que se aproximasse na parede e fizesse um desejo dentro do buraco, gritando, o desejo se tornaria realidade. Dani já tinha treze anos, muito não acreditava nessas coisas. Mas ainda uma noite, quando voltava do cinema, gritou no buraco: "Quero ser namorado da Gisela", mas nada aconteceu.
Uma outra vez ele foi ao buraco e pediu que seus pais lhe dessem uma bicicleta de alumínio no seu aniversário de número 14, e também nada aconteceu.
E ainda outro dia, um dia em que se sentia muito sozinho, gritou no buraco da parede que queria ter um amigo, um anjo da guarda, e desta vez o desejo se realizou. Não foi imediatamente, mas depois de dois ou três dias um anjo apareceu para ele. Embora (a verdade) ele não era um “anjo da guarda”. Porque este anjo nunca esteve lá quando Dani precisou dele.
Ele era um anjo magro e usava uma longa capa de chuva o tempo todo, para que suas asas não aparecessem. Ele andava curvado e as pessoas da vizinhança achavam que ele era corcunda. Às vezes, quando estavam sozinhos, o anjo tirava sua capa de chuva. Uma vez ele deixou Dani tocar as penas das asas. Foi só uma vez, porque o anjo não tirava sua capa nem para ir ao banheiro. Como se suas asas o deixassem complexado.
Certa vez, alguns garotos do bairro lhe perguntaram: "O que você tem dentro da sua capa de chuva Anjo?" E o anjo disse que ele tinha uma mochila com livros emprestados e que não queria molhar caso chovesse.
O anjo mentia o tempo todo. Contava para o Dani histórias incríveis. Falava sobre lugares no céu, sobre gatos que não tinham medo de nada, sobre bairros inteiros habitados por pessoas incapazes de fazer mal. E ele sempre jurou, por Deus, que o que ele dizia era verdade.
Dani amava muito o anjo e sempre tentava acreditar nele. Mas era difícil. Várias vezes ele lhe emprestou dinheiro, e o anjo nunca o devolveu. Nos seis anos em que foram amigos inseparáveis, Dani nunca o viu trabalhar. E quando ele mais precisou, por exemplo quando sua avó morreu, o anjo desapareceu e depois voltou com o cabelo mais comprido, e um olhar em seu rosto que significava "Peço por favor, não me pergunte por onde estive". E Dani, é claro, nunca perguntou. Além disso, eles eram grandes amigos.
Um sábado, logo depois de Dani terminar o ensino médio, os dois estavam sentados no terraço, entediados, sem falar, olhando os cabos que atravessam por cima dos telhados, as caixas d'água desbotadas, os ninhos dos pombos. E de repente Dani pensou que, em todos aqueles anos de amizade, ela nunca tinha visto o anjo voar. Então ele disse, por puro tédio:
-Que tal você voar um pouco? Não muito, apenas por aqui, para se divertir. O anjo respondeu:
-Nem que a vaca tussa. Imagina se alguém me vê? O anjo respondeu:
-Mas quem vai te ver? Se não tem ninguém no bairro neste momento. vai, um voo curto, para mim”, disse Dani. Mas o anjo disse que não balançando a cabeça negativamente e, para completar sua resposta, cuspiu uma gota verde que caiu do quinto andar até o térreo
-Bah", disse Dani, - agora tenho certeza que você nem sabe voar.
-Sim que eu posso, mas não quero que me vejam, respondeu o anjo.
E os dois ficaram em silêncio.
Depois de um tempo, Dani mudou de assunto: - Quando eu era menino, no carnaval, eu vinha aqui no terraço para jogar balões de água nas pessoas. Eu os acertava bem entre aqueles toldos.” Dani apontou para um pequeno espaço entre o armazém e a sapataria. "Era ótimo, porque as pessoas, todas molhadas, levantavam a cabeça procurando saber de onde vinha a emboscada.
O anjo se aproximou, intrigado, e olhou para a rua. Então Dani o empurrou e o anjo tropeçou na borda. Dani não queria machucá-lo. Ele só queria que o anjo voasse um pouco, para dar uma volta no ar algumas vezes, era só isso, para se divertirem. Mas o anjo perdeu o equilíbrio e caiu cinco andares como um saco de batatas.
Quando ela ouviu o barulho contra o asfalto, Dani se engasgou num grito. Então ele olhou para baixo com horror. O anjo estava esparramado entre a calçada e a rua. Ele não moveu um fio de cabelo. Apenas mexia um pouquinho as suas asas, como aqueles estremecimentos semiautomáticos que vêm logo antes da morte.
Então Dani percebeu tudo. Ele entendeu que, de todas as coisas que o anjo lhe dissera desde o início de sua amizade, nenhuma era verdade. Tudo falso. Seu amigo nem era um anjo, era apenas um cara mentiroso com duas asas.






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